Com explosão de casos de covid-19, demanda por leitos supera capacidade de hospitais; por isso, associações médicas criam regras, baseadas em chances de sobrevivência, para ajudar médicos a fazer escolhas difíceis.
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| Falta de leitos é problema crônico, mas se agravou com o coronavírus, dizem médicos — Foto: Reuters |
A explosão de casos de Covid-19 no Brasil nas últimas
semanas leva aqueles na linha de frente do combate à pandemia do novo
coronavírus a passar por um dos piores cenários possíveis de sua profissão.
O grande fluxo de pacientes fez as unidades de tratamento
intensivo (UTIs) atingirem níveis perigosamente altos de ocupação e, em alguns
casos, chegarem à lotação máxima.
Muitas vezes, não há espaço para todos que precisam de
atendimento, e os médicos precisam escolher quem vai para a UTI quando surge
uma vaga.
"A gente acaba escolhendo quem vai ter mais chances de
sobreviver", diz a médica Andressa*, que trabalha na emergência de um dos
maiores hospitais públicos de Fortaleza, no Ceará, o segundo Estado com o maior
número de casos, atrás apenas de São Paulo.
Formada há dez anos, Andressa diz que a falta de leitos de UTI é
um problema crônico do Sistema Único de Saúde (SUS). Mas isso se agravou com a
pandemia, mesmo com o esforço de governos para aumentar a capacidade dos
hospitais.
"Os leitos mais do que dobraram, mas não conseguimos dar
conta da demanda. Temos pacientes intubados na enfermaria, na emergência. Já
teve paciente que ficou mais de duas horas rodando intubado em ambulância
porque não tinha vaga", diz a médica.
"Fazemos essa escolha (de quem vai para a UTI) todos os dias, é
algo rotineiro. Mas não é fácil. Dá uma sensação de impotência muito grande, de
que estamos lutando contra algo muito maior do que a gente."
Além de ficar mais frequente na rede pública, esse dilema também está se
tornando uma realidade onde até então não existia, a rede privada.
A cardiologista Marina* diz que teve de tomar essa decisão com uma
paciente de 90 anos depois que sua saúde piorou rapidamente ao ser internada em
um grande hospital particular do Rio.
A idosa precisava ir para a UTI, que estava quase lotada. E havia outros
oito pacientes mais jovens em estado grave, recebendo um alto fluxo de
oxigênio.
Havia uma grande chance destes doentes precisarem ser intubados, mas não
haveria vaga para eles se a paciente de Marina fosse para a UTI.
Uma comissão de médicos optou por deixar a idosa sob cuidados
paliativos, e ela morreu na madrugada seguinte.
"Foi uma angústia muito grande, porque era uma pessoa que estava
lúcida, não tinha outras doenças graves e havia expressado o desejo de
viver", diz Marina.
A médica diz que, antes da pandemia, isso não acontecia porque havia
leitos de UTI suficientes.
"A gente não precisava fazer essa 'escolha de Sofia'. Mas agora
estamos vivendo cada vez mais isso. E é muito difícil também porque não somos
treinados para tomar esse tipo de decisão, para priorizar quem tem mais chance
de se recuperar porque é mais jovem ou saudável. A gente aprende que tem que salvar
vidas."
Associações médicas criaram regras
para orientar essa decisão
Para ajudar os médicos a tomarem essas decisões com base em critérios
científicos e uniformes, associações médicas brasileiras criaram protocolos de
triagem de atendimento em UTIs quando houver um colapso do sistema de saúde.
Um deles foi elaborado pela Associação de Medicina
Intensiva Brasileira (Amib) em parceria com a Associação Brasileira de Medicina
de Emergência, a Sociedade Brasileira de Gerontologia e a Academia Nacional de
Cuidados Paliativos.
"Em uma situação de catástrofe, não queremos que essas
escolhas sejam feitas em segredo, mas de forma clara e transparente, com
critérios eticamente justificados e de acordo com o ordenamento jurídico e os
valores brasileiros", afirma a médica Lara Kretzer, coordenadora da equipe
responsável pelo protocolo divulgado neste mês pela Amib.
"Queremos trazer esse assunto para o debate público e
prestar contas de como esse processo está acontecendo em vez de varrer tudo
para debaixo do tapete."
"Os médicos que estão na ponta, além de estarem sofrendo muito ao ver tanta gente morrendo, com a sobrecarga de trabalho e com o medo de contaminar seus familiares, precisam tomar decisões que podem gerar traumas graves", afirma Zilda Cavalcanti, diretora do Cremepe.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de Pernambuco
(Cremepe) também elaborou seu próprio protocolo, que foi levado à público no
final de abril.
"Se um profissional tem um respirador para três pacientes,
ele não pode carregar sozinho o peso dessa escolha. Precisamos dar critérios
para respaldar o médico e fazer com que essa decisão seja a mais justa
possível."
Os protocolos da Amib e do Cremepe se baseiam em uma
análise das condições de saúde do paciente para determinar, por meio de um
sistema de pontos, quem pode se beneficiar mais de um leito de UTI.
Em ambos, é feita uma Avaliação Sequencial de Falência de Órgãos
(Sofa, na sigla em inglês), em que é analisado o estado de seis sistemas
básicos do organismo: respiratório, cardiovascular, hepático, de coagulação,
renal e neurológico. Quanto pior for a condição do paciente, maior é a
pontuação recebida.
Também é analisado se o paciente tem outras doenças crônicas, as
chamadas comorbidades, que são um fator de risco para quem tem Covid-19.
O Cremepe tem uma escala; nela, quanto pior for o quadro do
paciente, mas alta será a pontuação.
A Amib soma as pontuações de duas avaliações. Na primeira, é
conferida uma pontuação única aos pacientes com expectativa de vida inferior a
um ano.
Depois, é medida a capacidade física e motora de uma pessoa
naquele momento, um indicativo de quanto ela será capaz de responder ao
tratamento. Novamente, a pontuação é maior conforme pior for a condição do
doente.
Ao final, são somados os pontos de cada avaliação, e o paciente
com a menor pontuação recebe prioridade na vaga da UTI.
O objetivo destes sistemas é identificar os casos em que a saúde
de uma pessoa está tão comprometida que nem mesmo uma UTI conseguirá salvá-la
ou quem não está tão doente em comparação a pacientes para os quais a UTI pode
ser a diferença entre a vida e a morte.
"Em um esgotamento do sistema de saúde, a ênfase passa a
ser salvar o maior número de pessoas. Por isso, precisamos racionalizar o uso
dos recursos", explica Kretzer.
Cavalcanti ressalta, no entanto, que deixar de
internar um paciente na UTI não significa abandoná-lo à própria sorte.
"Gosto de uma frase que ouvi: 'Muitas pessoas vão para a
UTI querendo garantir seu direito à saúde, mas, na verdade, querem garantir seu
direito à esperança'. Mas, há casos em que o risco de morte de uma pessoa é
altíssimo, e ela não vai se beneficiar da UTI. O melhor a fazer é proporcionar
um fim de vida digno."
Maximizar
o ganho para a sociedade
O médico Eduardo Leite, da comissão de terapia intensiva
da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia, diz que a falta de vagas
de UTI por causa da pandemia de Covid-19 já é uma realidade em algumas cidades
do país e que, em uma situação assim, é preciso estabelecer regras melhores de
atendimento.
Normalmente, uma pessoa precisa ir para este tipo de unidade
porque sua saúde está muito frágil e exige um acompanhamento bem próximo e uma
resposta imediata da equipe médica em caso de piora. Ou ainda porque necessita
de um equipamento de suporte à vida que só é oferecido na UTI, como é o caso
dos respiradores.
O atendimento é feito conforme a ordem de chegada, e não há
critérios para exclusão de um paciente.
"Mas, em um sistema hospitalar saturado, isso pode não ser
o melhor, porque dar uma vaga para quem não tem muitas chances de sobreviver
não é a forma mais eficiente de administrar o sistema de saúde", diz
Leite.
O médico Daniel Neves Forte, que é especializado em
cuidados intensivos e paliativos, explica que, antes desta pandemia, não havia
a necessidade, em países mais desenvolvidos, de fazer uma triagem de pacientes
por causa de falta de vagas de UTI.
"Esse era um problema inexistente para eles, que ficaram
assustados com o esgotamento de leitos e correram atrás para desenvolver
mecanismos de triagem", diz Forte, que é presidente do comitê de bioética
do Hospital Sírio-Libanês.
Mas isso já era uma realidade no Brasil por causa da
precariedade do SUS. Isso levou o Conselho Federal de Medicina (CFM) a
publicar, em 2016, uma resolução que estabelece cinco níveis de prioridade para
admissão nas UTIs, que vão de pacientes com "alta probabilidade de
recuperação" àqueles "sem possibilidade de recuperação".
"Essa resolução já foi um grande passo à frente, mas ainda
assim era muito subjetiva, baseada na interpretação feita pelo médico em cada
caso", diz Forte.
O médico avalia que os protocolos criados no Brasil representam
um avanço, por apresentarem critérios mais objetivos que reduzem as chances de
haver injustiças com esse tipo de escolha.
'Querem
responsabilizar quem está na linha de frente?'
Lara Kretzer, da Amib, diz que as regras desenvolvidas
pela associação médica vão ser testadas cientificamente para verificar se
atinge seus objetivos.
"A partir disso, podemos ajustar o modelo para que ele
cumpra a função de identificar o paciente que tem mais chance de sobreviver e
diminuir o número de mortos em uma pandemia."
A Amib já apresentou seu protocolo para a Associação
Médica Brasileira (AMB) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) para que estas
organizações avaliem os critérios e se posicionem sobre sua adoção. Nenhuma das
duas fez isso até o momento.
O CFM não respondeu ao pedido de entrevista da BBC News Brasil.
A AMB diz que está avaliando o protocolo e não tem uma previsão de quando se
manifestará.
"Precisamos estar muito bem fundamentados para isso, porque
essa crise vai passar, como outras já passaram, e as atitudes que nós tomarmos
é que ficarão", diz Lincoln Lopes Ferreira, presidente da AMB.
"Mas nada disso é novo. Denunciamos há muito tempo esse
problema, que revela uma ineficiência de gestão crônica. Agora querem
transferir a responsabilidade para quem está na linha de frente?"
Kretzer diz que a elaboração de um protocolo não significa isentar
o gestores de saúde de sua responsabilidade, porque o documento prevê que as
regras só podem ser aplicadas depois de ser feito um esforço para ampliar a
rede de atendimento.
"Também não estamos jogando isso no colo do médico, pelo
contrário. Estamos tentando tornar mais fácil e seguro o seu trabalho com
critérios desenvolvidos por sociedades científicas e submetidos ao escrutínio
de especialistas", diz Kretzer.
A médica afirma ainda não ser possível ignorar que há problemas
graves no sistema de saúde público do país, mas diz que comparar a falta de
leitos crônica ao que ocorre em uma pandemia é "fazer uma confusão
enorme".
"Em uma situação normal, quando há um aumento na demanda, é
possível repensar e ajustar a forma de trabalho. Mas estamos falando aqui de
uma situação de catástrofe, em que, mesmo depois de aumentar o número de
leitos, cancelar cirurgias eletivas e de outras medidas de contingência, o
sistema continua não dando conta. Não podemos nos abster diante de uma situação
assim, e não vai ajudar em nada minimizar o que está acontecendo."
*O nome dos entrevistados
foi alterado para preservar sua identidade.

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