Pesquisadores da Universidade Federal de Pernambuco fizeram testes com 70 amostras de fezes de uma colônia de morcegos-vampiros no Sertão do estado, no município de Buíque, a 281km do Recife. Em 15 das amostras, foi possível extrair DNA e, em três delas, foram encontrados vestígios de sangue humano. É a primeira vez que isso ocorre em uma pesquisa e o que chama a atenção é que esses animais se alimentam de aves silvestres e em outros estudos, os quirópteros preferem jejuar e até morrer de fome antes de tentar atacar animais maiores mesmo do porte de cobras e porcos. Uma das preocupações do estudo é a propagação de doenças, já que os morcegos-vampiros são os principais transmissores da raiva. Para os pesquisadores, agora é a hora de planejar visitas às casas de moradores próximos para descobrir quantas vezes eles estão sendo mordidos e por quê.
De acordo com o professor de zoologia da Universidade Federal de Pernambuco Enrico Bernard, o estudo, realizado junto à estudante Fernanda Ito, foi conduzido entre 2014 e 2015 e focou na espécie mais rara entre as três observadas, a Diphylla ecaudata. Eles investigam duas hipóteses que podem ter motivado os ataques, uma ambiental e outra relacionada à cadeia alimentar. “A caatinga não tem mais os animais que os morcegos se alimentavam historicamente, tanto por causa da caça, quanto por causa de um consumo não sustentável, que fez as presas naturais desaparecem. Outra hipótese é a busca por uma fonte alternativa de alimentação”, explica. Quanto às precauções necessárias diante da conclusão da pesquisa, a orientação é que a população do Vale do Catimbau não entre em pânico. “Caso sejam atacados, precisam procurar imediatamente os postos de saúde, mas é importante ressaltar que as vacinas antirrábicas estão em falta”, denuncia.
Pesquisadores acreditam que os animais também possam entrar em casas por buracos nas janelas e no teto. Além disso, a inserção de moradores no habitat deles, como no Parque Nacional Vale do Catimbau, pode ter levado aos ataques. O sangue humano tende a ter um conteúdo mais espesso e rico em proteínas do que o das aves selvagens, principais fontes de alimento dos morcegos-selvagens. Também foram encontrados traços de sangue de galinha nas fezes dos morcegos.
A raiva em humanos é considerada por médicos uma das doenças mais graves que se tem conhecimento, chegando a quase 100% de taxa de mortalidade. Ela pode ser transmitida pela saliva de cachorros, morcegos, gatos e até mesmo macacos contaminados. O único brasileiro curado da doença até hoje é o pernambucano Marciano Menezes da Silva, morador da cidade de Floresta. Ele contraiu a doença em 2008, após ser mordido por um morcego, perdeu o movimento das pernas e foi tratado no Hospital Oswaldo Cruz, no Recife. Sendo a terceira pessoa do mundo a recuperar-se da doença. Hoje, convive com as sequelas deixadas pela enfermidade, como danos nos membros superiores e inferiores.
De acordo com os registros oficiais, entre janeiro e abril de
2016, apenas dois morcegos-vampiros com raiva foram encontrados no Brasil, em
São Paulo e Goiás. Durante todo o ano, apenas dois casos da doença em humanos
foram registrados pelo Ministério da Saúde, um em Roraima e outro Ceará, onde
um agricultor foi contaminado por um morcego. Na capital pernambucana, a última
campanha de vacinação para raiva de cães e gatos foi realizada em março de
2016, imunizando mais de 80% da população de animais da cidade.
Segundo a Secretaria Estadual
de Saúde (SES), a vacina em questão, de fato, está com estoque reduzido em todo
o Estado e informa que a competência do fornecimento é do Ministério da Saúde,
que, durante os últimos meses de 2016 enviou quantitativo do insumo inferior ao
entregue regularmente. Por meio de nota, a SES informou ainda que o órgão
federal “determinou a readequação do fluxo de distribuição do insumo em todo o
Brasil, recomendando o uso da vacina prioritariamente nos casos em que o animal
agressor morrer, desaparecer ou tiver contato comprovado com morcegos ou
tornando-se raivoso”. Além disso, há a indicação de uso prioritário nos casos
de agressão por animais silvestres, como morcegos e raposas. De acordo com o
MS, o paciente que for exposto ao risco da doença deve passar por uma avaliação
médica ambulatorial criteriosa a fim de verificar a real necessidade do uso da
profilaxia humana”. O órgão estadual informa ainda que moradores do interior de
Pernambuco, em caso de contaminação, devem procurar o hospital regional mais
próximo e tentar localizar o animal, cão ou gato, para mantê-lo em observação
por um prazo de 10 dias. A última contração de raiva em Pernambuco, por cão,
foi registrada no ano de 2004.
Postado por San Produções & Eventos

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